Me lembro do meu primeiro contato com esse que seria um dos meu poemas preferidos do Manuel, me lembro que já conhecia clássicos como A Estrela e Vou-me Embora Pra Pasárgada, parece que foi ontem que estava no auge dos meus sonhos e imaginação, me lembro o quanto achei-o agressivo, feio e bruto.
As coisas mudam tanto a cada segundo, e domingo passado me lembrei dele, estávamos falando de poesia, do Bandeira e antes que eu pudesse pensar eu me vi falando sobre a critica social desse poema, algo que sempre diferenciou o autor dos outros, isso e a dor que ele passava com suas palavras nem sempre de veludo.Voltando a esse belíssimo poema. Os pequenos versos são criticas constantes a falta de humanidade que nos temos com outros humanos, a subsistência de seres não apenas humanos através do nosso lixo e da industria do lixo, acredito que nem Manuel em seu infinito talento poderia imaginar como esse poema se tornaria um hino do século 21. Muitas pessoas acham que poesia é só sobre amor, isso é um engano poesia é arte e como arte fala sobre a vida em todas suas formas.
“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem”.
Difícil é não interpretar esse poema de milhares de formas, somos seres sociais, temos prazer por conhecer e aprender procuramos respostas para tudo, o que não sabemos inventamos. Quem é esse bicho, que cata comida entre detritos, qual grupo social ele representa? Qual seu lugar na sociedade em que Bandeira estava inserido, e na nossa? Será essa pessoa um conhecido nosso?
Vivemos numa sociedade que sobrevive à base da produção e compra de qualquer matéria, mas não prospera! Provocamos a degradação da nossa própria saúde, provocamos a destruição dos meios que são fundamentais para nossa sobrevivência, matamos outros animais e não vamos esquecer matamos uns aos outros. Se isso é prosperar não sei mais de nada, lógico que em todos tempos pelo que estudamos de história houveram violência, escravidão e chacinas, mas com a informação que possuímos hoje estamos destruindo em grande escala como nunca, não apenas nós mesmos como antes, mas o planeta como um todo. Uma sociedade que é baseada na produção de bens e serviços, exige uma série de coisas como matéria prima e energia, e tanto os bens como os serviços que consumimos diariamente não são feitos com objetivo de durarem, de poderem servir para outras finalidades, pelo contrário eles são feitos apenas para o lucro imediato, quem não se lembra da mãe ou avó falando que antes as coisas tinham uma maior resistência mais o que pode durar, quando o objetivo é a troca constante de tudo, até mesmo de pessoas?
Imagine a mais de 30 anos, para Bandeira como deve ter sido a experiencia de ver um homem que procurava subsistir a partir dos detritos encontrados no lixo. Ainda mais naquela época onde o número de pessoas que viviam em lixões era menor e a realidade nas periferias e classes mais pobres era escondida do resto da sociedade. Muitos de nós se sente tão acostumado com cenas como essas nas ruas, na televisão, na vida das cidades grandes em geral, que nos tornamos insensíveis a dor e sofrimento, a pobreza e suas características... Esquecemos que isso não deveria acontecer, esquecemos que no lugar daquele estranho, poderia ser nosso pai, sua namorada, nossos amigos, filhos, desumanizamo-nos para conseguirmos suportar tais situações, mas será que isso é a coisa certa, será que esse é o único caminho?
Como sempre Bandeira dá um significado diferente para poesia, ele a politiza. Transforma-a num veiculo de comunicação com objetivos éticos. Ele utiliza dos versos livres, para despertar em nós todos sentimentos humanos possíveis diante da degradação de nossos irmãos e irmãs, através desse simples e cru poema descritivo, ele nos sensibiliza e compartilha conosco sua surpresa pelo ruma que a história humana tomou.
Espero que vocês possam refletir sobre esse poema, a apreciar a honestidade e humanidade contida nele.
Beijos.