No começo de Novembro fui num salão, odeio ir em salões de beleza, nos fazem sentir mal, porque ou você esta no padrão deles, ou você é uma preguiçosa; não existe desculpa, não existe argumentação, não existe ética, só aqueles velhos padrões que todo mundo já conhece.
Depois de ser quase forçada a usar um shampoo e condicionador, ainda não não havia aprendido a dizer não, que raiva. Me cabelo ficou ressecado - óbvio, e dificil para pentear, a cabelereira começou a desembaraça-lo, honestamente pensei que iria sair careca de tanto que ela puxava, esfregava e reclamava que meu cabelo era muito "duro", que deveria fazer uma progressiva, que existem metodos melhores e mais faceis de cuidar do cabelo hoje em dia. Só lembrando que ela não estava fazendo nenhuma obra de caridade, que eu paguei e paguei bem. Só lembrando também que provavelmente eu sei mais sobre texturas e metodos de cuidar de um cabelo crespo do que ela que era dona de salão.Ela realmente forçou a barra insinuando que meu cabelo não era "bom". Fico realmente muito impressionada com o número de profissionais de salões que não sabem como cuidar naturalmente de cabelos, nem crespos, nem ondulados, nem lisos, eles apenas encontram suspostos defeitos e tratam eles com quimicas, nem preciso falar da ética profissional preciso?!
Pressão Familiar

Me lembro de aos seis ou sete anos, um dia de bastante sol e as crianças brincando na piscina na casa da minha madrinha, mas eu tinha que brincar menos porque eu tinha que passar quimicas no meu cabelo, já que ele era muito "ruim". Era algo que não me importava até que começaram a dizer que era muito importante.
Chegando em casa dessa última vez fiquei muito chateada quando minha mãe e meu pai - que é negro, falaram que finalmente tinha arrumado o cabelo feito gente, p*** que pariu, eu sempre arrumava meu cabelo, como pode uma pessoa negra falar mal de um cabelo crespo, engraçado que eu não vejo uma pessoa de cabelo liso fazendo a mesma coisa, reclamações todos temos, mas esse preconceito contra nossa própria etnia é algo tão pequeno, mesquinho e ridiculo, sabe tive uma vontade louca de raspar a cabeça pra ver se assim todo mundo ficava satisfeito,
fica subentendido que você pode ser bonita, desde que você não seja você.
Pressão no Trabalho
Você já reparou como o mercado de trabalho é preconceituosa com pessoas de black power, tranças enraizadas, ou qualquer um que fuja do padrão. Eles se esforçam para dizer que não, que eles são afavor da inclusão, desde de sempre e portanto que nós nos excluamos diariamente, nada contra negros dizem eles, desde quando esses negros tenham traços estéticos semelhantes aos brancos, nariz fino, não sejam muito negros, porque quando se trata de branco todos são brancos, mas quando é a vez de negros existem os mais ou menos negros e os negros mesmo. Mas não importa muito sua cor, se você estiver dentro do padrão ou morrer tentando, se alisar seu cabelo regularmente, se pranchar semanalmente, viver no cabeleireiro, hidratar sempre, se até pintar de claro, não só porque é bonito, mas porque vai te deixar mais bonita, porque cabelo claro é mais bonito que cabelo escuro. Não estou dizendo que pranchar o cabelo ou pintar seja errado, estou lembrando que nossa auto estima não deveria depender disso, nem a chance de um melhor emprego. Estou dizendo que quando todos temos que ser iguais para sermos aceitos aí se torna errado.

Já perdi a conta do número de vezes que já mandaram alisar meu cabelo, passar uma quimica, e disseram que ia facilitar meu cuidado diario com ele. Mas eu já fiz tudo isso, eu lembro como era, nunca foi fácil não, nem barato, nem tão divertido como todo mundo insinua. E estou cansada, sem paciencia de não poder ser aceita como eu sou. Me lembro de quando uma amiga me disse que eu não tinha cara de quem tinha cabelo crespo, que eu tinha cara de quem tinha cabelo liso, p*** m****!?! Esse mesmo padrão de que você não tem cara de ladrão de for branco, mas se for negro aí você é "mais suspeito". De que você nunca traiu se é timida, mas se for um pouco mais folgosa você é uma vagabunda?
Nessa última vez que fiz prancha ouvi várias criticas, alguns falaram que eu fico feia de prancha que estraga o cabelo - não me diga?! Outros que meu cabelo é muito "ruim" pra usar só prancha e preciso mesmo de uma progressiva - que bom né? Tentar seguir um pradrão é pedir para ser escravizado, nunca terá um fim, é apenas começo e continuação. Atualmente não faço mais prancha devido aos diversos problemas que tive, mas irei falar mais sobre isso em outra postagem...
Pressão nos Relacionamentos

Me lembro de após ficar com um cara que era muito firmeza e muito lindo, ele estar bebado e conversando comigo, ele soltou que eu era muito linda, que a única coisa que me estragava era meu cabelo, só posso te dizer que nunca mais fiquei com ele e nem quero ficar, que ele é ridiculo, porque ninguém é perfeito, e eu tenho milhares de defeitos como estrias e celulites, mas meu cabelo não é nenhum deles. Cabelo assim como cor da pele, nariz e outras coisas são caracteristicas, você nasce com eles, é como a natureza fez você.
E eu honestamente acho meus cachos tão lindinhos, acho cabelos crespos tão sexy. Até mesmo quando vejo outra mulher de cabelos cacheado eu acho bonito eles dão uma definição no rosto. Pra mim só não é mais viavel, porque tenho que trabalhar com cabelo preso, e cachos nasceram para ser livres ou estilizados, não para serem amarrados, aprisionados! Quando vejo uma mulher com cabelo liso também acho bonito, mas acho que a maioria dos cachos são mais ousados, são a natureza, cachos me lembram cascatas, me lembram cachoeiras, me lembram que sou negra, ainda que ninguém veja isso, me lembram que sou humana, descendente de diversos povos e por isso os amo, todos eles, porque eu sou uma parte de cada um, e todos juntos me fizeram, agora segregar meu cabelo crespo porque tenho uma pele clara, ou fazer algo que realmente não é pratico apenas porque alguém acha que é o melhor a fazer e te obriga atraves de pressão social e psicologica, é algo tão feio, tão feio. É ridiculo. Sei que muita gente não vai me entender, mas talvez alguém um dia tenha passado por isso e se sinta como me sinto. Desde que me lembro sofro alguma forma de pressão social pelo meu cabelo.
Auto Estima e Pressão Psicologica
Eu ainda me lembro quando tinha 9 anos, eu me lembro de estar assistindo tevê e ver uma menina deficiente com cabelos bem lisos, eu me lembro de ter pensado que ela tinha mais sorte que eu porque ao menos seu cabelo era liso, isso me deixa enojada hoje. E eu pensei isso, eu me senti assim tão mal, porque eu me sentia deslocada, eu me sentia injustiçada, porque eu via na tv as crianças bonitas, inteligentes e legais e os adultos todos com cabelos lisos ou cacheados ondulados, quase nunca crespos, exceto os das empregadas. E eu queria ser uma mulher de sucesso, eu queria ser mais. Lembro até que tinha ferozes brigas com minha mãe do porque ela tinha me feito com cabelos crespos. Que era culpa dela, coitada. Coitada dela e de mim, coitados de nós por sermos manipulados de forma tão cruel, existe um ótimo poste do blog da Lola sobre
Porque a maior crueldade é que a gente aprende a se odiar e outra sobre
Racismo.
Quando papai e mamãe se casaram eu tinha dez anos. Até então mamãe penteava e trançava meu cabelo diariamente, o que sempre era feito através de muita dor e choramingo da minha parte. Ela fazia aquelas tranças bem simples mas era suficiente para manter meu cabelo arrumado. Então ela casou e tudo mudou comecei a fazer algumas coisas por mim mesma como lavar o cabelo, desenbaraça-lo, pentea-lo. Lógico que foi dificil pra mim primeiro porque estava acustumada a ter ela fazendo-o, segundo porque meu cabelo batia nas costas e embaraçava facilmente e vivia ressecado.
Cremes nunca eram o suficiente. Numa época parei de desembaraçar até porque doia muito e meu cabelo deu vários nós, para meu pai só tinha um jeito: cortar, curtinho estilo joãozinho, eu tinha uns 11 anos... Nossa me lembro de como sofri, da até vontade de chorar; me sentia péssima, lembro que depois que voltei do salão com o novo corte, estava tão infeliz como nunca até então, eram férias de Janeiro, não queria sair de casa, não queria ver ninguém, sentia como se uma parte de mim tivesse se perdido, porque não era como eu queria estar mas era como eu estava.
Quando comecei a me aceitar com meu cabelo, e fiz um relaxamento - na verdade vários que não serviam de nada, começaram os problemas eu sofria muito preconceito na escola. Esses preconceitos começaram quando me mudei de escola, sai de um bairro de classe média para uma cidade na Grande São Paulo, os outros adolescentes debochavam de mim, me faziam de motivo de chacota, me excluiam não só os meninos que não queriam ficar comigo pelo meu cabelo, mas também as meninas que sempre queriam ser as mais bonitas e viver cercada das mais bonitas como se elas fossem enfeites e não pessoas com sentimentos e inseguranças como eu. Conforme meu cabelo foi crescendo as coisas foram piorando porque ele era grande demais para que eu pudesse sentar na frente nas aulas, mas curto demais para amarrar, isso me fazia desejar sumir, eu desejava nunca voltar pras aulas, contava os minutos para ir embora, e não consiguia lidar com ninguém. Foi nessa época que conheci a Negra, a Thaís e a Rohh, mas essa é outra história, e elas não eram minhas amigas e sim colegas. Eu não tinha amigos e me sentia deslocada porque eu estava com meu black power em pleno 2002 na época da chapinha e alisamentos, diferente de hoje que surgiu uma onde de curly girls em todo pais, onde os cachos foram valorizados. O cabelo com o tempo cresceu as piadas pararam, e eu sobrevivi!

Meu cabelo foi crescendo e eu enchendo ele de alisamentos de todas marcas. Até que conheci o
crudivorismo e a higiene natural. Decidi apostar tudo e tive um resultado que causou espanto em todos, porque ninguém sabia como meu cabelo realmente era, nem mesmo eu. Todos exceto minha mãe que acha cabelos cacheados bregas, vamos admitir ela tem um gosto tão 1961 né?!
E principalmente eu estou cansada das pessoas me botarem pra baixo porque tenho "cabelo de nêgo", estou de saco cheio dos suspostos gostos pessoais alheios e tenho coisa melhor pra fazer do que me esforçar pra agradar quem quer que seja. Porque eu sou bonita no meu próprio jeito e se você não consegue enchergar a minha beleza ou a sua não é um problema meu.
Porque sei que nós mulheres e alguns homens, somos cobrados do dia que nascemos até nosso último suspiro, mas dane-se, eu só tenho uma vida e vou vivê-la plenamente.
Imagens que ilustraram essa postagem.
Um grande beijo e até logo.